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Tenha fé, pois amanhã um lindo dia vai nascer

 

Ano novo, horizontes novos. Ou não. A primeira quinzena, do primeiro mês, está se encerrando. É como se estivéssemos numa maratona: já estamos devidamente inscritos, trajados e a postos diante da linha inicial da corrida, muito provavelmente dando alguns pulos, aquecendo alguma parte do corpo. Um outro está ao lado da linha inicial, prestes a dar o sinal para começar a corrida. Não sabemos se vamos chegar até o final do percurso, nem o que vai acontecer durante, mas ali estamos, pretendendo correr e encerrar aquela jornada. Disse isso porque o ano, para o brasileiro, costumeiramente se inicia após o carnaval, que sequer sabemos se realmente vai existir. Isso sim que é um problema de calendário para o nosso povo. E isso tudo era só pra introduzir esse texto e dizer que chegou aí mais um ano, leitor.

Carinhosamente, também te desejo um bom e abençoado 2022. Um escritor francês chamado Houellebecq, num de seus livros, disse que a relação entre o autor e o leitor é sui generis, sendo o maior contato que um indivíduo pode ter com o outro, superando inclusive a amizade. Assim, a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto – digo isso sem qualquer intenção religiosa. Disse que o ponto máximo disso – aqui eu traduzo para o mineiro – é o leitor querer sentar com o autor para comer um queijo, tomar um café e prosear. Segundo ele, “numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido”. E é assim que eu escrevo esses meus textos. E também é por isso que te desejo um bom e abençoado 2022.

Deixando de lado os devaneios dos parágrafos anteriores, queria tratar aqui, nesse primeiro texto do ano, sobre o mal que o marketing – entendam o marketing nos termos do que eu direi, não como uma disciplina ou ciência – faz para as pessoas e como isso reduz uma vida a situações. Entendi isso pelas palavras de Pedro Sette-Câmara, então já deixo evidente que são ideias dele. Quando se diz reduzir uma vida a situações, significa que você deixa de vivenciar uma história, o que acontece quando você só vê um objetivo e um obstáculo.

Pense, você deixa de ver a vida como uma história em que erros, acertos, descobertas, rumos, perdições, encontros, desencontros ocorrerão e poderão até servir de aprendizado alguns anos mais tarde. Ao contrário, começará a se cobrar em termos de eficiência, de produtividade, como se fosse o CEO do seu próprio destino. É ter essa mentalidade. Sette-Câmara dá um exemplo tratando de uma relação de Cristo e Pedro: “Imagine Cristo chegando para Pedro na praia. Cristo diz: ‘Vem e segue-me’. Daí Pedro responde: ‘Não posso, não bati ainda minha cota de pescaria do dia, preciso sair daqui, dar uma casa melhor para minha mulher e tal’”.

Jó certamente estaria lascado e tentaria entrar com uma ação de falência da sua vida – me parece que uma recuperação judicial seria impossível -, pois o que ele teve em certo período da sua vida foi uma sequência de derrotas, perdas e sofrimentos. Mas ele não entendeu a sua vida como situações, não ficou preso a momentos e também não esperou ter apenas vitórias. Soube que tinha uma história e que ela deveria ser vivida. Foi um exemplo de alguém que experimentou o que disse Elisabeth Elliot: “Seja lá o que estiver no cálice que Deus está me oferecendo – dor, tristeza, sofrimento ou lamento, como também as superabundantes alegrias – estou disposta a tomar, pois eu confio nele”.

Isso quer dizer que você pode estar saindo de um ano em que suas experiências não foram boas, um ano que te trouxe sofrimento, te trouxe dor, talvez até perdas. Ou você pode ter saído de um bom ano, com evoluções, sejam espirituais, pessoais, profissionais ou qualquer outra possível. E, diante de um ano bom ou ruim, vem outro ano, no qual você pode experimentar o amargor da dor ou o doce da alegria, ou ambos. Diante disso, o psicólogo canadense Jordan Peterson traz à tona uma consideração sobre a memória e como ela nos ajuda diante dessa relação entre passado, presente e futuro: “Essa é a finalidade da memória. Você se lembra do passado não para que seja “precisamente registrado”, mas, sim, repito, para que você se prepare para o futuro”.

A vida é um poema que vivemos enquanto o escrevemos, li isso em algum canto, mas não me lembro do autor. E, para encerrar, em alusão a uma passagem numa das epístolas de Paulo aos Coríntios, que vivamos mais um ano conforme as palavras do filósofo italiano Sciacca, diante da fé, da esperança e do amor: “Nós nos colocamos no hoje da fé, no amanhã da esperança, no sempre do amor. Escolhemos viver necessariamente como um a nossa singular existência imortal”.

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