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O silêncio angustiante dos ratos

“Sê puro, constante, fiel a ti mesmo, senhor de teus instintos, enérgico, crê em ti, não esperes a aprovação, a simpatia, o reconhecimento dos outros. Pensa em que tens uma obra a realizar, que o tempo perdido é um roubo feito a Deus, que o desencorajamento é uma fraqueza, e que a única paz é a paz da consciência, que somente alcançam a coragem e o devotamento. Sê devotado à sua família, aos teus amigos, à tua pátria, a todos os homens; luta contra a tua inconstância e tua fraqueza; sê corajoso, forte, enfim, sê homem” (H.F. Amiel).

Aos que conhecem, calma, esse texto não é uma apologia ao ‘Fúria e Tradição’. Introduzo com a citação de Amiel um tema em torno do livro “O Jovem Oficial”, de Michael Henry, que trata sobre o Bem e o Mal – sim, em letras maiúsculas. O romance trata de maneira simbólica a questão que já coloquei, usando para tal a circunstância de um navio infestado de ratos e a hercúlea missão de seus tripulantes eliminarem os roedores. Numa explicação talvez rodrigueana – ou isso seria herético? -, é como se fosse o Cruzeiro lutando para subir para a Série A do Brasileiro, algo que parece impossível, mas que no final alguém tem a sua esperança de que acontecerá – mesmo que isso demore um bom tempo.

A personagem principal é quem dá nome ao livro, um jovem oficial que é incumbido pelo comandante da tripulação de solucionar o problema dos ratos. Diversas estratégias foram tentadas por pretendentes anteriores e nenhuma surtiu efeito, ao ponto de certos tripulantes cogitarem a ideia de que seria impossível acabar com os ratos e, diante disso, deveriam mesmo é se adaptar ao convívio com os roedores. Em determinado momento da leitura, fica perceptível a imagem trevosa da noite e as passadas dos ratos, numa espécie de silêncio angustiante, de uma ilusão de que tudo estaria bem após os ratos se aquietarem e o barulho cessar.

Resumindo, “… os ratos não significam nada mais, na realidade, do que nossa miséria e nossa impotência, e a imagem deles que vem nos perseguir até em nossas noites, e seus gritos horríveis que rasgam o invisível silêncio são o testemunho irrefutável de nossa infeliz condição”, percebe o jovem oficial em determinado momento do livro.

Aliás, esqueci de falar que essa personagem é constantemente menosprezada e escanteada pela tripulação, que desacredita do seu sucesso nessa disputa contra os ratos. E é aí que ele demonstra algo bem contido numa poesia de Sebastião da Gama: “Lembro discretamente o vago instante, / no fundo da minh’alma acontecido, / em que todos que tinham desistido, / de não sei que batalhas malogradas, / pegaram novamente nas espadas, / dispostos a vencer ou morrer…”. Os jovens chamariam isso de resiliência e os coaches de um grande líder empresarial – tudo patacoada, leia o primeiro parágrafo de Amiel, eis o que ele realmente foi.  Posteriormente, diante de uma estratégia de sucesso, após diversos fracassos, os tripulantes que zombavam passaram a ser ajudantes do jovem oficial naquilo que seria o “Dia D” dessa guerra contra os roedores. E nesse grande dia expulsaram os ratos.

Não vou contar o desfecho da melhor maneira possível, mas, adivinhem, apesar de todo o festejo e daquele navio ser exemplar por ter eliminado os roedores, eles voltam e por um meio que não era imaginado. É com base nisso que o jovem oficial diz que “assim, nada podemos, ou quase nada, por aqueles que virão depois de nós, senão deixar-lhes um navio limpo e livre dos roedores. Mas eles precisarão combater por sua vez, pois o resultado ao qual teremos chegado, na melhor das hipóteses, não será atingido em definitivo”.

Pense na mensagem da cruz de Jesus: “se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9:23). O seu navio não estará sempre limpo, os roedores podem atormentar o seu silêncio noturno – que será angustiante. Alguém pode ter limpado esse navio anteriormente, mas caberá a você, corajoso, forte, fiel a ti mesmo, constante, senhor de teus instintos, agir como o jovem oficial nessa frequente guerra entre Bem e Mal, apoiado e guiado por um Comandante, a fim de ser como as virgens prudentes da parábola de Jesus, vez que o Mal é traiçoeiro e retorna nos momentos mais inesperados nos acontecimentos da vida.

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