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Entre pandemias e carnavais

Brasil, 1918. Há pouco mais de um século, num momento meio esquecido da história da saúde brasileira, a gripe espanhola chegava em terras brasileiras para assolar o nosso povo. Michael Henry, em seu “O Jovem Oficial”, nos conta como ratos são capazes de propagar o caos em uma embarcação. A espanhola era o caos e veio, como os ratos de Henry, num navio que iria mudar o nosso país.

Certamente que, no centenário dessa desgraça, pouquíssimas pessoas pararam para relembrar do terror que foi a gripe espanhola no século passado. Agora, diante da pandemia do coronavírus, a espanhola voltou a ser comentada e por vezes comparada, tanto por médicos quanto por cientistas sociais, com o vírus chinês. Porém, até agora não vi ninguém fazer menção das memórias de Nelson Rodrigues sobre a gripe espanhola, ele que na década de 60 foi capaz de rememorar o que acontecia em meados de 1918, quando tinha apenas 6 anos de idade.

Não é o primeiro artigo que cito um dos maiores dramaturgos brasileiros, assim como não será o último. Nelson ficou conhecido pelas suas crônicas e teatros, pelo ser polêmico que foi. Mas há, também, a sua excelente obra de memórias, como “A Menina Sem Estrela”, que uso como inspiração para esse texto. E é nisso que compreendo como Michel Houellebecq acerta em falar que nos tempos em que vivemos mais vale ter um bom romancista ao seu lado do que os tais intelectuais (ou certos filósofos autoproclamados).

“Ora, a gripe [espanhola] foi, justamente, a morte sem velório. Morria-se em massa. E foi de repente. De um dia para outro, todo mundo começou a morrer. Os primeiros ainda foram chorados, velados e floridos. Mas quando a cidade sentiu o que era mesmo a peste, ninguém chorou mais nem velou, nem florou. […] A morte estava no ar e repito: difusa, volatizada, atmosférica; todos a respiravam”, escreveu Nelson.

Numa de suas memórias sobre velórios, Nelson conta sobre o velório de um pastor, no qual, fruto do acaso, entrou um bêbado, desconhecido de todos, e, ao ver o defunto de gravata borboleta, começou a rir, aumentando cada vez mais o tom das gargalhadas. Essa foi a gargalhada que rompeu com o silêncio.

Ele pormenoriza a desgraça e a humilhação vivida à época: “E o apavorante eram a solidão, o abandono e, sobretudo, a humilhação do cadáver”. Completando, que “o sujeito morria nos lugares mais impróprios, insuspeitados: na varanda, na janela, na calçada, na esquina, no botequim”.

O brasileiro é um homem de fé, escreveu, mas que perdeu a sua fé e o fósforo que acendia as velas em memória e respeito aos falecidos. Isso porque o sujeito morria sem vela, sem uma missa de sétimo dia, sem um velório, “a Espanhola arrancou tudo, pisou nas dálias, estraçalhou as coroas”. Ouviu um vizinho a perguntar: “Quem não morreu da Espanhola?”, quando percebeu, em 1967, que uma cidade morria em 1918.

O ano findou e logo depois explodiu o carnaval, em 1919, que ele caracterizava como um “desabamento de usos, costumes, valores, pudores”. Nelson chamou o carnaval daquele ano de homicida e suicida. E disse que ali findava o Rio de Machado de Assis. Aquele carnaval fora de um erotismo absurdo e, partindo dum dizer de que o desejo é triste, Nelson viu que nunca se desejou tanto naqueles quatro dias. “A tristeza escorria, a tristeza pingava, a alegria era hedionda”, conclui.

Hoje discutem, dos palpiteiros aos arautos da política brasileira, se o carnaval de 2022 deve acontecer ou não. Não vou pautar Bastiat, defensor da liberdade, de um lado e o religioso, que quer a extinção do carnaval desde que nasceu, do outro. Esse texto não pretende analisar se o passaporte sanitário é o que basta para que um carnaval seja política e socialmente aceito, como algumas festas recentemente têm sido organizadas e abundantemente lotadas. É sobre o Rio que não era mais de Machado e o brasileiro que não era mais o homem de fé, sobre aqueles que não puderam dar a devida honra aos seus mortos, os que viram que uma cidade morria, e que o “novo normal” não era novo e tampouco normal.

Só imagino mesmo que esse carnaval, caso aconteça, seja como aquele bêbado que entrou no velório, olhou para o morto posto no caixão como um Narciso e saiu a dar gargalhadas, progredindo no tom, até que todos os cantos pudessem ouvir sua manifestação zombeteira e psicodélica contra a morte.

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