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Direita e esquerda à brasileira

Tema recorrentemente tratado em diversos meios da sociedade brasileira, desde uma conversa de bar até uma tese de doutorado, a discussão, ou melhor dizendo, a fala dominante sobre direita e esquerda, os principais polos da política, é um quanto que vulgar e viciada. O seu primeiro contato com esse tema muito provavelmente foi na escola, em que o debate é quase nulo e absoluta é a voz do professor que te ensina sobre os dois lados do espectro político.

É evidente que a ciência e filosofia política não resumem diversas posições políticas na dicotomia entre direita e esquerda, todavia, tais termos são comuns na mentalidade popular. Portanto, partimos daqui, das considerações existentes sobre a política entre esquerda e direita, sabendo que esse é um ponto inicial, não final.

Além disso, também considero que a esquerda é a detentora de uma hegemonia cultural no Brasil, fruto de uma revolução cultural iniciada ainda durante o regime militar no século passado, enquanto a direita teve um sopro de renascimento a partir de 2013.

Iniciando as considerações sobre direita e esquerda, algo característico dos últimos tempos e recorrente no debate político, tendo a adesão tanto de parlamentares quanto de acadêmicos, é a vulgarização de termos como nazista e fascista. São posições políticas, mas viraram uma maneira de ofensa e tachação de pessoas que pensam de maneira contrária, como o conservador ou o liberal – pasmem, mas alguém que prega o Estado mínimo recorrentemente é chamado de fascista, o sujeito que defende um Estado grande.

Na conceituação de Bobbio, a esquerda é quem luta pela igualdade, enquanto a direita é quem tolera as desigualdades sociais. O difícil de explicar, com base nesses conceitos, é como alcançar a igualdade, pelos esquerdistas, e quem irá igualar os desiguais, centralizando isso na figura do Estado, por meios intervencionistas, como ente detentor do poder. Pense, portanto, na esquerda como aqueles que convergem para a ideia do Estado grande. Sobre o que falei no parágrafo anterior, o fascista e o nazista tinham essa pretensão, bem como o socialista.

Contrariamente, a direita converge para a ideia do Estado mínimo, reduzido, considerando, no que diria o filósofo Michael Oakeshott, a política do ceticismo, em que se questiona sobre a concentração de poderes e o aparelhamento burocrático de um Estado, com a finalidade de atingir uma utopia social ou, no que disse William Morris, uma “sociedade perfeitamente feliz”, um paraíso terreno, a partir de um pleno impulso revolucionário.

Com base nisso, Cesar Ranquetat Jr. define alguns traços essenciais, estruturais e constitutivos da direita, a citar: “o pessimismo antropológico, o realismo político e metafísico, a defesa dos princípios da autoridade e da hierarquia, a preservação dos corpos sociais intermediários e das instituições tradicionais – como a família e a religião -, o senso comunitário e patriótico e a crença no valor e na importância da tradição”.

Em “tempos estranhos”, se faz necessário considerar que a democracia é permissiva com ideias opostas e uma convivência harmônica entre esquerdistas e direitistas. Diante disso, pontuo sobre a necessidade de se fugir da ideologia – busque sobre os erros da ideologia na visão de Russell Kirk -, optando por reais inclinações na defesa de ideias políticas, uma vez que, segundo Jean Revel, “o ideólogo só percebe o totalitarismo em seus adversários, nunca nele próprio, já que ele é o dono da Verdade absoluta e tem o monopólio do Bem”.

Na toada das críticas às ideologias, as quais vulgarizam o debate público e tornam-no oclocrático, como dizia Voegelin, Martim Vasques da Cunha traça, na mesma linha, a seguinte consideração: “Por isso o alerta em relação às ideologias políticas: elas obscurecem o homem sobre o real que sempre se manterá pelo que ele é – em toda a sua luta e em toda a sua mortalidade”.

Apesar de ser, sem sombra de dúvidas, inclinado à direita, Nelson Rodrigues chamava a todos de canalhas. Não creio ser a conclusão mais apurada, mas compreendo os motivos pelos quais ele, no século passado, já usava tal termo. A política brasileira não é nada aprazível e seus peões digladiam por poder, esquecendo que existe todo um campo de ideias e virtudes que norteiam ações e configuram posições.

 

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