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Cultura

Coluna Cultural: FAHRENHEIT 451

Livro foi escrito em 1953 por Ray Bradbury e a estória se passa em um futuro distópico.

Por Cristiano Caporezzo

Uma atitude ideológica paradoxal, ainda que expressa na habitualidade de determinada conduta comum, sempre irá gerar perplexidade no coração daqueles que se dedicam ao pensamento, fazendo-os perguntar retoricamente como que o comportamento de bando e a covardia diante dos próprios medos são capazes de obscurecer a razão. Esse pensamento me ocorreu após ler Fahrenheit 451, o atualíssimo romance escrito em 1953 por Ray Bradbury e cuja estória se passa em um futuro distópico.

No mundo de Guy Montag – o personagem protagonista da obra – todas as casas são revestidas por um composto plástico à prova de fogo e a corporação dos bombeiros é incumbida de uma missão que inverteu o seu próprio caráter: ao invés de apagar incêndios eles passaram a queimar livros. Inclusive é exatamente esse o significado do título. Fahrenheit 451 é a temperatura na qual o papel do livro entra em combustão.

Associado ao infame dever dos bombeiros está à satisfação de uma sociedade dominada por uma ideologia hedonista que, por isso mesmo, os leva a buscar o prazer concomitantemente com a total negação dos desprazeres. Nesse contexto a queima de livros se torna uma consequência imperativa, devido ao potencial que estes possuem de conduzir os seus respectivos leitores ao exercício de um auto-questionamento que pode acabar por revelá-los a sombria realidade circundante.

Um dos pontos mais interessantes de Fahrenheit 451 acontece quando Beatty (o Capitão dos Bombeiros) conversa com Montag a respeito da influência das minorias “ofendidas” na caça aos livros: “Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos… todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpinhos. Autores cheios de maus pensamentos, tranquem as suas máquinas de escrever!”. Ao comentar sob a contemporaneidade desse tema com um amigo meu, acabamos lembrando da que qualquer semelhança com o caso absurdo de tentativa de censura do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, por parte do IARA (Instituto de Advocacia Racial e Ambiental) NÃO foi apenas uma horrenda coincidência.

Como, logicamente, uma pessoa pode se auto-questionar sem precisar ler livro algum, todo o ambiente cotidiano dos personagens é construído para manter-se a atenção dispersa mediante subterfúgios jocosos dentre os quais se destaca o aparato rádio-televisivo (que é tão interativo ao ponto de conversar com o telespectador e ser chamado de “família”). O preenchimento do dia com as “atividades divertidas” é tamanho que os raros momentos vagos, por sua atipicidade e pela tendência à introspecção, quando não levam a tentativa de suicídio por ingestão de remédios para insônia, geram sofrimento psicológico extremo. Para a sociedade da obra, essa é a prova cabal do caráter lesivo da reflexão e da leitura.

A estória descrita em Fahrenheit 451 serve para demonstrar que a cegueira e a censura ideológica consubstanciadas com a busca dos prazeres através da negação histérica de todo e qualquer fator que tenha o potencial de ser considerado um problema, por mais que um dia possa se tornar uma realidade tão onipresente quanto o conceito gramscista de hegemonia cultural, jamais será capaz de suplantar o ímpeto daqueles que, a despeito de tudo e de todos, se dedicam com afinco ao ato de parar para pensar.

No que diz respeito ao final do livro, me restringirei a incitar a curiosidade do leitor com a seguinte afirmativa: Ray Bradbury fez justiça poética à sociedade de seu romance incendiário.

Cristiano Caporezzo

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