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Bolsonaro, Lula e outros: 2022 está aí

O ano está acabando e mais um ano eleitoral está se aproximando. Me parece que agora é um excelente momento para os políticos desconexos da realidade popular atiçarem a síndrome de Estocolmo escondida no coração de cada brasileiro. Para não ser cansativo, e também manter uma finitude no texto, vou me ater a tratar de umas poucas impressões que tenho sobre os presidenciáveis (ou pré-candidatos, como a formalidade prescreve).

Os brasileiros têm uma tendência a detestarem a política, Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro é um furioso nato, e contra os políticos vemos isso, todos têm algo a resmungar de algum deles. Apesar disso, gostam do Estado inflado que temos. É o tal do “diminui o salário do político, corta aquele auxílio, reduz o número de parlamentares em tal casa”, quem sabe até gritando que são canalhas, com o dedo em riste, mas viram as costas e resmungam para o vizinho que o gari do município precisa passar na sua rua para cortar o mato do meio-fio, ou reivindicar algum dos emaranhados direitos constitucionais – gosto do tal “direito à felicidade” criado pelo Supremo.

Dito sobre os furiosos natos, vamos para os presidenciáveis. Outro dia estava lendo o Pedro Sette-Câmara comentando a ascensão de Zemmour na França, basicamente um sujeito que deve ocupar a posição de Le Pen na política nacional francesa. Na Argentina, temos a recente eleição de Javier Milei, que resume uma derrota da trupe de Kirchner no país do papa. A relação disso com o texto é que os dois, se você pesquisar na internet, vão ser associados ao Bolsonaro e Trump, como sendo suas versões francesa e argentina. Sei lá em qual das ondas da nova direita estamos – Macri e Le Pen foram substituídos em seus países -, mas elas existem e derrubam progressistas.

E assim chego ao verdadeiro presidenciável do que hoje chamam de “terceira via”, o que vem de fora do clube da tesoura – a resumir, os do PSDB e PT. É o Bolsonaro. Nelson Rodrigues admirava e muito Carlos Lacerda, mesmo quando este o fazia ver o sangue cair da sua ferida – Lacerda atacava Nelson de tarado e quase acabou com o jornal em que ele escrevia -, a ponto de o considerar um orador formidável, a insânia que fazia bem ao Brasil. Até mesmo quando a unanimidade parecia enterrar Lacerda, Nelson viu que este era um falso defunto político, que voltaria potencializado, da cabeça aos sapatos, após, nesse caso, o suicídio de Vargas. E não errou.

Já dispus isso num outro artigo, que uma boa explicação para a eleição de Bolsonaro está no documentário “Nem Tudo se Desfaz”, mas aqui vai a minha impressão sobre o nosso atual presidente: mesmo que o considerem acabado, um defunto político, ele dá a volta potencializado, como no 7 de setembro desse ano. É quem encontra proximidade com o povo, sem dosagens mentirosas, como o tal “pai dos pobres” ou o irmão do político que avança contra policiais pilotando uma retroescavadeira.

Do outro lado do tablado do segundo turno, temos o cabeça do partido que recentemente celebrou a vitória, na “eleição” da Nicarágua, do ditador Ortega. O tal do molusco. É o mesmo que foi bater em Cuba durante a pandemia, trocar umas palavras com seus amigões democratas. Esse é o principal preocupado em acordar a síndrome de Estocolmo presente nos brasileiros. Aliás, quem tem memória não se esquece das condenações em várias instâncias, do Mensalão, de Celso Daniel, ou dos que habitaram as metalúrgicas do ABC no final do século passado. Nelson Rodrigues – mais uma vez ele – falava que o que falta ao brasileiro é o espanto político, já que as coisas espantosas aqui no Brasil deixaram de espantar. Aqui temos um ex-presidiário com grandes chances de ascender [novamente] à presidência. Seria esse o sucesso da tal ressocialização do detento?

Na reta final, me permitam recordar a figura de Henrique Meirelles, o candidato de Temer em 2018, que investiu milhões e ficou atrás do folclórico Cabo Daciolo. Aliás, o Daciolo tem mais esperança e confiança que se eleja – mesmo que isso seja só na sua cabeça – que o pacato, parado como poça em que se criam mosquitos da dengue, Sérgio Moro. Moro é o sujeito que disse que não entraria na política, mas entrou. Foi ser ministro da Justiça de um governo armamentista, e hoje reafirma o quão desarmamentista é. Um grande arauto do paradoxo, perturbado também pela falta de autoconfiança em se lançar formalmente como presidenciável – não o fez no ato de filiação ao Podemos. Caso não retranque, deve bater os quase um milhão de votos de Álvaro Dias em 2018, mas não sei se chegaria aos cinco milhões de Alckmin.

O rapaz do Novo não deve nacionalizar o sucesso de Romeu Zema e tem tantas chances quanto o título desse texto tem de palavras: pouquíssimas. O outro é o mineiro que foi eleito senador com base no medo, produzido pelos bons marqueteiros, da eleição de Dilma ao Senado. Tem a fala polida, cumpre com a cartilha da diplomacia política, mas costuma abaixar a cabeça quando o Supremo dita algo. Sequer protege o Congresso, será que protegeria o Planalto de uns certos atos abusivos que batem na porta do palácio?

No final, o senso comum de direita e esquerda retorna ao palco principal, entre Bolsonaro e Lula. Vivemos para ver um PSDB querendo ser chamado de terceira via, além dum gaúcho cercado de tucanos e uns poucos pardais na maior cidade do Sul de Minas, angariando votos para ganhar as prévias de seu partido.

A direita progrediu no Brasil, mas veremos se vingará com algum projeto olavista ou algo programático, como o apresentado no CPAC 2019 e 2021. A nova esquerda se junta com a esquerda antiga, o centro se reúne e o povo fica entre o furioso nato e a síndrome de Estocolmo.

Na pior das hipóteses, minhas impressões são como as parvas implicâncias de Lima Barreto, nem socialistas, nem anarquistas e tampouco republicanas, apenas implicâncias.

 

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