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A grandeza teatral de Nelson Rodrigues e outras impressões

“Sempre fui e serei menino até morrer. Toda minha obra vive de um espanto que é exatamente a reação infantil. […] Se não fossemos cegos para o óbvio, teríamos percebido que todo artista é assim e repito: nunca houve artista adulto”. Esse é Nelson Rodrigues comentando o espanto do público com a sua peça “Toda nudez será castigada”, num texto de 1965.

Evidentemente, mesmo que você nunca tenha lido uma crônica ou peça teatral do Nelson, deve ter ao menos ouvido falar sobre ele em algum lugar. Aliás, esse texto pretende ser um ode a leitura da obra teatral do Nelson. Sair daqui sem conhecer algo dele você não vai, isso garanto.

Muitos divagam no mundo virtual brasileiro sobre o ideal da alta cultura e lamentam a degeneração do Ocidente, promovendo mais um medo e pânico sobre isso do que qualquer outra coisa. Pois bem, ao menos sobre esse medo não vou fazer proselitismo aqui. Outro dia estava numa cafeteria proseando sobre, adivinhem só, a obra teatral do Nelson, com um outro amigo. Ele ouviu falar sobre o Nelson, leitor, mas não tinha lido ainda. Bastou ele conhecer meio por cima uma das tragédias cariocas para já querer não só ler, mas também comprar o teatro completo.

Guarde sobre essa prosa num café no interior de Minas, vou retomar isso depois. Agora é a hora de você ler, quem sabe pela primeira vez, a seguinte frase: o mineiro só é solidário no câncer. Discordou? Ficou revoltado? Uai, o mineiro não é um sujeito acolhedor, hospitaleiro e amável? Pois bem, se você ficou revoltado, então compreenderá a frase do Nelson: “o verdadeiro teatro agride sempre”. Ele vira pra você e fala que não tem sentido aplaudir o seu teatro, porque é tão absurdo como seria o aplauso da vítima à própria agressão.

Sobre o mineiro e a solidariedade, esse é o núcleo da peça que certamente deixou Otto Lara Resende famoso, pois o nome do escritor mineiro é justamente também o título do teatro. O personagem principal, Edgard, é perseguido por essa frase durante toda a peça e, no final, consegue matá-la. A morte da frase significa justamente que Edgard seria o personagem de Nelson que não se rendeu a degradação do caráter daquele que é comprado pela extorsão, que escanteia a justiça, que se rende a acídia (nos termos utilizados no final desse texto) e mira nos atalhos malandros da vida, tal qual propôs o diabo para Cristo no deserto.

Solzhenitsyn diz que “o sofrimento forma a alma como nada pode fazer”. É dessa formação que o Nelson bem entende. E o sofrimento rodrigueano quando não termina numa tragédia – leia-se morte e caos -, finda numa grande superação, após, é claro, uma série de reviravoltas. Edgard é o sujeito que não se sucumbe pelo caos e vai ter com a morte – mesmo que isso aconteça com outros personagens -, mas que sai vitorioso de uma grande tempestade que naufragou o seu navio e o fez terminar a viagem só com os braços.

O médico, personagem da peça “Toda nudez será castigada”, em determinado momento diz: “É o homem, sempre o homem, Herculano. Não há, nunca houve o canalha integral, o pulha absoluto. O sujeito mais degradado tem a salvação dentro de si, lá dentro”. Daria para assistir inspirado o filme “Pulp Fiction” após ler essa frase e pensar que o personagem do Samuel Jackson, Jules, se enquadraria na frase do médico rodrigueano. Pautando Hollywood a partir dum brasileiro, já pensou nisso? Acho que a conversa de Jules sobre a salvação, numa das grandes cenas do filme, conseguiria facilmente se estabelecer com Herculano ou o médico, personagens de Nelson Rodrigues.

Agora podemos voltar para a prosa numa cafeteria no interior de Minas. Toquei nesse assunto para falar que você não precisa de um cachimbo na boca, um terno no corpo e uma cartola na cabeça para ler e conversar sobre as grandes obras. Basta abrir o livro, e-book ou seja lá qual o formato, e começar a ler. Não se menospreze por não ter feito o curso virtual sobre “como ler os clássicos” ou ter lido o “Como ler livros”, do Mortimer Adler. Nunca se viveu em tempos que os livros estiveram tão acessíveis – seja em relação ao preço ou mesmo a disponibilidade de encontrá-los.

Outro dia estava assistindo um dos episódios de um famoso podcast brasileiro. Nele, um juiz, também conhecido, estava falando sobre como esperava frequentar alguns pontos boêmios do Rio de Janeiro, inspirado para estar nos mesmos locais frequentados por figuras como Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Bom, não conseguimos mais ver o Nelson que desfilava em Copacabana, mas conseguimos vê-lo na obra deixada por ele. É sobre isso que Houellebecq fala: “Da mesma maneira, um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nosso dias”. Já pensou em passar um dia com o Nelson? Basta abrir o livro e ler a sua obra.

“… somos nostálgicos de um lugar simplesmente porque ali vivemos, bem ou mal, pouco importa, o passado é sempre bonito, e o futuro também, aliás, só o presente é que faz mal, é que transportamos conosco como um abscesso de sofrimento que nos acompanha entre dois infinitos de felicidade serena”. Isto é Houellebecq, novamente. E essa foi a crítica que fiz no começo dessa publicação, sobre o medo de um mundo que se parece apocalíptico em relação ao caos e a desordem. Na tristeza de não acessar o passado nostálgico, muitos não veem o futuro com esperança, justamente por interpretarem estar num presente caótico e em declínio.

Não precisamos estar nos bares em que habitavam Tom Jobim e Vinícius de Moraes, nem no calçadão de Copacabana em que Nelson passeou. Nelson contava em suas peças sobre pessoas que existem em todas as cidades; Nelson era como o seu primo, leitor, que vai no estádio e xinga o juiz; Nelson era gente que compreendia a tragédia que é a vida. Ele não só merece ser lido, como também deve ser objeto das conversas. Aliás, experimente falar com algum conhecido sobre o livro que leu em vez de perder tempo discutindo um filme inútil que você viu numa plataforma de streaming.

Não deixe que a tristeza da acídia lhe domine, a qual, segundo Pedro Sette-Câmara, vem de achar que os bens mundanos são inacessíveis – como querer ler um livro, mas achar impossível a sua leitura, pois o autor “é difícil”, ou “você é incapaz”, ou “é preciso fazer um curso sobre como ler livros”.

A vida, como demonstra Rasselas, o príncipe de Samuel Johnson, não é perfeitamente feliz, tampouco será uma utopia com roteiro de alguma série da Netflix. Mas dá para ter uma boa vida e dialogar com bons escritores, bastando para isso abrir seus livros e lê-los – aqui reside alguma esperança nesse texto.

E, jamais deixe de compreender, ainda mais lendo Nelson, que “isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante” (Machado de Assis).

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